sábado, 15 de dezembro de 2012

Meu jogo inesquecível, no Castelão: cearenses resgatam emoções

Todo torcedor cearense tem uma história vivida no Castelão para contar. E, na maioria das vezes, elas resgatam emoção que até hoje faz arrepiar. O GLOBOESPORTE.COM/CE conversou com torcedores de Ceará, Fortaleza e Ferroviário para saber o jogo inesquecível de cada um deles, na maior praça esportiva do Estado.

O dia 3 de julho de 2005, por exemplo, foi determinante na vida de Matheus Ribeiro, de 18 anos. Ele tinha onze anos, quando viu nascer a paixão pelo Fortaleza, então na Série A. E o goleiro Bosco é um dos grandes culpados disso. 

- Foi meu primeiro jogo no Castelão. Fui com meu pai e entrei no campo, segurando a mão do Bosco - lembra Matheus.

Mazinho comemora gol com Lúcio, Fumagalli e Marquinhos (Foto: Kiko Silva/Agência Diário)Mazinho comemora gol com Lúcio, Fumagalli e Marquinhos (Foto: Kiko Silva/Agência Diário)

O garoto sentou com o pai na parte central das cadeiras inferiores e parecia anestesiado por aquele gigante que o rodeava.  

- Logo de cara fiquei completamente em êxtase. O Castelão estava completamente lotado.

Mas a emoção diminuiu quando ele viu o time começar perdendo para o Corinthians. Abuda cabeceou no canto e abriu o placar para o Timão. Aos 30 minutos do primeiro tempo, começaria a reação. Mazinho Lima recebeu cruzamento rasteiro, da linha de fundo, e bateu de canhota, de primeira, sem defesa para o goleiro Fábio Costa.

No segundo tempo, o Tricolor precisou apenas de 4 minutos para virar. O mesmo Mazinho Lima estava no canto certo, na hora certa, para pegar uma sobra de bola e chutar novamente de primeira. 2 a 1 Fortaleza.

- Quase eu morro de chorar. Eu não sabia se pulava, se gritava - afirma Matheus.

Aquele gol e aquele choro o tornaram mais um fanático pelo Leão, no que era a metade da década de ouro do clube.

- Meu pai sempre me incentivou, porque ele já era muito torcedor. Depois que fui pra esse jogo, não tive mais alternativas - brinca.  

O lugar diferente do habitual e a discussão com a namorada

Israel Simonton, de 23 anos, até tinha muitas opções de lugares para sentar, no 31 de março de 2011, dia do último jogo antes de o Castelão fechar para reformas. Mas ele preferiu fugir do local onde sempre costumava ficar, em busca de uma visão melhor do campo.

- Meu irmão e e minha mulher (namorada, na época) reclamaram pra caramba. Mas eu disse 'Vamos ficar é aqui. Vai dar certo' - lembra.

O lugar escolhido era em cima da Torcida Organizada Cearamor, atrás do gol, na última fileira.

- Quando chegamos lá, a sensação foi horrível. Deu tontura, o campo parecia menor, foi uma m****. A visão de jogo é horrível e dá tontura assistir lá. O meu irmão já tava era voltando lá pra baixo, quando eu gritei: 'Ei, macho, vamos ficar aqui. Tem alguma coisa aqui que vai dar sorte'. Ainda passamos uns 10 minutos discutindo, mas ele acabou ficando - explica.

Nicácio levou o estádio ao êxtase, com gol nos acréscimos do segundo tempo (Foto: Agência Diário)Nicácio chorou e levou o estádio ao êxtase, com gol nos acréscimos do segundo tempo (Foto: Natinho Rodrigues/Agência Diário)

Valeu a pena dar um voto de confiança a Israel. O gol de Ruy 'Cabeção' para o Brasiliense podia fazer acreditar que não. Mas era só questão de tempo. Fabrício empatou, depois do goleiro Gilson deixar a bola escapar, amenizando uma angústia que duraria até os 47 do segundo tempo. Foi quando Marcelo Nicácio recebeu na área, dominou, virou e chutou no cantinho, colocando o Ceará nas oitavas de final da Copa do Brasil.

- A gente chorou, eu só faltei pular lá de cima. Foi loucura, abracei gente que eu nem conhecia. E ainda saí gritando: 'tá vendo, tá vendo, tá vendo!'. Meu irmão saiu pulando feito doido, ia morrendo. Tirou a blusa e tudo - relata.

Naquele ano, o time terminaria em 3° lugar na competição nacional, parando apenas no Coritiba. E, naquele dia, o Castelão daria um 'até logo' a torcida cearense, para entrar em reforma, de olho de Copa das Confederações de 2013 e no Mundial de 2014.

A época que não volta e a chuva que dá saudades

Em contraste com Ceará e Fortaleza, a torcida do Ferroviário não comemora um título da equipe profissional desde 1995, quando o Tubarão da Barra conquistou o bi-estadual. Mas Lyanna Ribeiro, 33 anos, tem orgulho da camisa coral que veste até hoje e relembra com emoção uma vitória sobre o Itapipoca, em 15 de maio de 1994.

- Chovia muito no Castelão e era a decisão do primeiro turno. Eu sentei na arquibancada lateral, de frente pro centro do gramado. Saí toda molhada de lá, mas valeu muito a pena - relata Lyanna.

A goleada de 4 a 0 começou com um 'gol relâmpago', aos 20 segundos de jogo. Era o primeiro, de dois gols de Branco na partida. Ernane (contra) e Naza completaram a conta. A vitória sobre a equipe do interior que estreava na elite do Estadual confirmou uma paixão estimulada pelo pai, desde que ela nasceu, em Porto Alegre.

Com saudade da terra natal, ele pediu que a avó da menina fizesse uma roupa do Ferroviário para ela, e foi a primeira camisa que Lynna vestiu. Há 25 anos de volta ao Ceará, a família é representada por ela em todos os jogos do Ferrão. E, naquele, tiveram muito o que comemorar.

Vitória liquidou o primeiro turno do Estadual de 94 (Foto: Reprodução/Jornal Diário do Nordeste)Vitória liquidou o primeiro turno do Estadual de 94 (Foto: Reprodução/Jornal Diário do Nordeste)

- Estávamos eu, meu pai, um tio, e mais uns primos. O Ferroviário jogou muito bem e eu não parava de gritar - afirma.

Após o título, a ligação com o clube aumentou de uma forma que, nem pra namorar, ela deixa de ir ao estádio. Cristiano - que odeia futebol - precisava ir aos jogos do time, nos sábados, para poder encontrar e conquistar a futura esposa. Conquistou e deixou de ir. Mas ela continua acompanhando o Ferrão e espera ansiosa pelo Campeonato Cearense para poder voltar a vibrar, apesar da durarouda má fase do clube.

Dificilmente, no entanto, o Tubarão jogará no Castelão em 2013. As partidas da primeira parte do Estadual, sem Ceará e Fortaleza, que estarão disputando o Nordestão, serão no Estádio Presidente Vargas. Um dia, talvez, Lyanna e Ferroviário se reencontrem no Castelão, com ou sem chuva.



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