Os tempos eram outros. Medo de rebaixamento como agora? Nem pensar. O elenco tinha Edilson, Edmundo, Evair, Antônio Carlos, Zinho, Mazinho, Rincón, Rivaldo, Roberto Carlos. E um garoto, bem menos famoso, um tal de Maurílio, no meio deles. A constelação do Palmeiras no início da era Parmalat ficou na história como um dos melhores esquadrões do futebol brasileiro. Entre 1993 e 1994, o time comandado por Vanderlei Luxemburgo encerrou um jejum de 18 anos sem títulos no Palestra Itália. Foi bicampeão paulista e brasileiro, além de conquistar um Torneio Rio-São Paulo (veja, no vídeo ao lado, vitória sobre o São Paulo, com gol de Maurílio, pelo Estadual de 94). Aquele elenco estelar tinha o atual treinador do Vitória de Santo Antão, de Pernambuco - na época, um jovem ainda engatinhando em uma carreira que, de certa forma, foi erguida nas costas de Roberto Carlos.
Maurílio treina o Vitória, clube da segunda divisão pernambucana (Foto: Lula Moraes/Globoesporte.com/PE)
Maurílio, que hoje não acredita em rebaixamento do Palmeiras, apesar da má fase, tinha apenas 21 anos quando fez parte daquele time palmeirense do início da década de 90. Foi o segundo clube da carreira do atacante, que defendeu 21 agremiações até pendurar as chuteiras em 2009. A trajetória dele começou no Paraná, e foi com a camisa paranista que seu destino cruzou com o de Roberto Carlos.
Maurilio nos tempos de Palmeiras: vaias e vitórias
(Foto: Agência Estado)
Explica-se. Maurílio é brasiliense, mas começou a carreira no Paraná porque aproveitou a passagem pela casa de um tio, em Curitiba. Fez um teste aos 18 anos e assinou o primeiro contrato. Começou bem, mas depois passou por uma maré de azar que o colocou como terceira opção do ataque. Estava em vias de ser negociado. Mas sua sorte mudou.
- O técnico Otacílio Gonçalves conversou comigo e disse que eu ia sair do clube. Fiquei triste, sentei ao lado da trave e comecei a rezar, me perguntando o que tinha feito de errado. Eu me conformei. No último treinamento antes do jogo, o atacante titular estava com a mão engessada e não poderia jogar. Então, o ponta que ia substituí-lo sentiu uma fisgada na coxa e também ficou fora. Fui chamado às pressas para ficar no banco. Na concentração, curtindo meu último pré-jogo com o Paraná, Otacílio me chamou e disse que eu ia jogar. Eu me emocionei e disse que estava rezando no quarto para ter dez minutos na partida, que ele não ia se decepcionar por me dar 90 minutos.
O jogo em questão era contra o União São João, pela Série B do Brasileiro de 1992. No time de Araras, Maurílio ia enfrentar dois futuros companheiros de Palmeiras: o goleiro Veloso e o lateral-esquerdo Roberto Carlos. E justamente no embate com o lateral é que o atacante paranista se deu bem.
- Brinco com Roberto Carlos que foi ele quem me salvou no futebol, pois pintei e bordei em cima dele nesse jogo. Na primeira bola que peguei, dei uma caneta nele e levei uma sapecada. Roberto levou amarelo. Na segunda bola, dei um passe para Saulo e quase saiu um gol. Fui ganhando confiança e jogando bem. No segundo tempo, Roberto Carlos estava atordoado, dei um drible e fui agarrado. O juiz mandou o vermelho na hora e caí nas graças da torcida. Quando estávamos no Palmeiras, agradeci a ele e caímos na risada.
A partida terminou empatada por 0 a 0, mas firmou Maurílio no Paraná. A saída foi cancelada, e ele ganhou um aumento salarial. O atacante acabou sendo peça-chave na campanha que deu o título da Série B aos paranistas.
O trabalho credenciou Otacílio Gonçalves para comandar a primeira equipe do Brasil com parceria multinacional. Ele foi a ponte para Maurílio aportar no Palmeiras da Era Parmalat, empresa italiana de laticínios que passaria a gerir o clube (relembre no vídeo ao lado a vitória de 2 a 1 sobre o Fluminense no Brasileirão de 93, com gol do ex-atacante).
- Na despedida de Otacílio, ele foi apertando a mão de todo mundo. Quando chegou a minha vez, ele me abraçou e disse ao meu ouvido: "Até daqui a pouco." Não entendi, fiquei curioso. Acabei sendo um dos primeiros contratados da Parmalat.
Inspiração no passado
Maurílio no treino: mais observa do que fala
(Foto: Aldo Carneiro/Pernambuco Press)
Hoje, aos 42 anos, Maurílio tenta usar a experiência acumulada ao longo dos anos para levar o Vitória de Santo Antão de volta à primeira divisão do Campeonato Pernambucano. De olho em adversários de pouca expressão em comparação aos times que defendeu e contra os quais duelou, ele não esquece o passado. Da cidade 53 quilômetros distante do Recife, o treinador faz uma viagem no tempo para recordar os momentos que viveu com a camisa do Palmeiras.
- É bom demais lembrar daquele time. Éramos uma verdadeira seleção, e eu jogava ao lado dos melhores. Formou-se um grupo vencedor, em que todos atuavam. Naquele time não tinha coadjuvante - recorda.
Situação bem diferente da atual neste Brasileiro. Com uma campanha irregular, a equipe figura na zona de rebaixamento. No entanto, Maurílio acredita que o Palmeiras tem condições de fugir da queda.
- Acredito que o Palmeiras escapa porque tem um elenco forte e quem está voltando do departamento médico está resolvendo. Agora, a diretoria tem que pegar este momento e procurar tirar lições, fazer diferente. Demitiram Felipão, mas a culpa não era dele, pois não deram os jogadores que ele queria. Tiraram o técnico, consequentemente respirou o caixa e não trouxeram novos atletas. Faltou jogador para buscar objetivos maiores. Fico muito sentido pelo estado do Palmeiras, pois tenho familiares, incluindo meu filho, que são palmeirenses. E me dá dó vê-loss com os olhos cheios de lágrimas por conta do time. Fico triste e torço para que resolvam a situação nesta temporada.
Maurílio também vai ao passado na busca de inspiração para a sua realidade como treinador do Vitória de Santo Antão. Ele não gosta de dar broncas. Prefere o diálogo, bem ao estilo Felipão.
- Sou do tipo paizão, que prefere conversar com os jogadores. A maioria das pessoas não produz no grito. Ao contrário: elas ficam mais retraídas. Então vou buscando melhorar a equipe na psicologia, colocando a minha experiência e meu conhecimento adquirido a favor deles. As coisas estão complicadas por aqui, mas sei que podemos melhorar.
No treino no estádio Carneirão, o treinador mostrou ser do tipo que mais observa do que fala. Maurílio vestia o uniforme do Vitória, nas cores que são íntimas do tempo em que era jogador. O clube pernambucano é vermelho, azul e branco, assim como o Tricolor que o revelou. Com quatro passagens pela Vila Capanema, Maurílio tem identificação especial com o Paraná.
- Fiz 70 gols por lá. Toda vez em que estava no Paraná, disputava artilharia ou conseguia uma boa transferência por causa das minhas atuações. Foi por isso que consegui jogar no Palmeiras, no Logroñes (Espanha) e no Al Ittihad (Arábia Saudita). Ando por Curitiba e as pessoas me reconhecem.
Amuleto palmeirense
Não tinha panelinha, mas tinha muita vaidade. (...) Não nego que era um barril de pólvora"
Maurílio
Otacílio Gonçalves, o padrinho de Maurílio na ida ao Palmeiras, não durou muito. Logo deu lugar a Vanderlei Luxemburgo, e o time começou a funcionar. Mas o atacante levaria dois meses até marcar seu primeiro gol. Na ânsia de acabar com a seca, chegou a perder um pênalti. Começou a marcar, mas a torcida não largaria do seu pé até as oitavas de final da Copa do Brasil de 1993, contra o Vitória.
- Comecei a fazer gols e virei amuleto do time. Até fizeram uma matéria comigo e Tupãzinho, do Corinthians, sobre essa característica. Mesmo assim, a torcida não sossegava. Quando eu pegava na bola, recebia um monte de vaia. Havíamos perdido a partida de ida por 2 a 1, o jogo estava empatado por 0 a 0 e precisávamos vencer. Foi aí que o meia Jean Carlos foi na ponta e cruzou. E eu completei, marcando o gol da classificação. Quando os torcedores viram que eu tinha marcado, ficaram estáticos, se perguntando "Maurílio fez o gol?". Mas depois explodiram em alegria e pararam de me perseguir. (Lembre no vídeo abaixo a vitória de 3 a 1 sobre o Náutico pelo Brasileirão de 94, com gol de Maurílio)
Em um time cheio de craques, as relações entre os atletas muitas vezes eram frágeis. Além de jogadores com currículos invejáveis, existiam os polêmicos, como Edmundo, Edilson e Rincón, que normalmente não levavam desaforo para casa.
- Não tinha panelinha, mas tinha muita vaidade. Um pouco normal, porque quando o jogador vai conquistando espaço na carreira vai ficando mais exigente, e o Palmeiras era um supertime, com vários atletas assim. Costumo dizer que fora de campo ninguém precisa ser amigo, que cada um vá para a sua casa. Porém, no jogo todos se respeitavam e agiam como um elenco. No entanto, não nego que era um barril de pólvora. Se mexesse, era briga, era pau.
Apesar de ser um bom contador de histórias, Maurílio não quis entrar em detalhes sobre a convivência dos comandados de Vanderlei Luxemburgo. Mas lembrou uma característica de Edmundo que irritava todos.
- Tinha vez que todo mundo brigava com Edmundo porque ele não tocava a bola. O time reclamando dele e de repente Edmundo ia na frente, na individualidade, e marcava o gol. A gente corria para comemorar, e a raiva passava na hora. De tempos em tempos, isso acontecia - afirma Maurílio, caindo na gargalhada.
Maurílio no Palmeiras ao lado de Cuca, que também virou treinador - atualmente, briga pelo título do Campeonato Brasileiro pelo Atlético-MG (Foto: Ag. Estado)
Copa do Brasil
Maurílio saiu do Palmeiras em 1995 e retornou para o Paraná. Teve passagens por Logroñes, da Espanha, Goiás, Santa Cruz, Grêmio e Ponte Preta até chegar ao Juventude em 1999. Já havia defendido o Alviverde de Caxias de Sul em 1997, mas foi na segunda passagem que marcou a história do clube. O atacante fez apenas um gol, na goleada de 6 a 0 sobre o Fluminense na segunda fase, mas foi titular na campanha do título da Copa do Brasil de 1999. Na final contra o Botafogo, a zebra predominou no Maracanã. O 0 a 0 tornou o Ju campeão (recorde no vídeo acima).
- Foi muito bom bater o Botafogo na final. Dar volta olímpica no Maracanã é uma sensação espetacular. Fizemos o estádio calar com 100 mil pessoas lotando as arquibancadas. Apenas uma minoria gritava e cantava. Era a nossa torcida. Foi lindo.
No primeiro jogo, no Alfredo Jaconi, o Juventude havia batido o Botafogo por 2 a 1. Fernando e Márcio Mixirica marcaram para os gaúchos, e Bebeto fez para os cariocas. Na partida de volta, segundo o ex-jogador, mídia e torcida no Rio de Janeiro já davam como certo o título alvinegro.
- Eles falavam que o Juventude não ia suportar a pressão no Maracanã. O time do Botafogo foi muito sério com a gente, as previsões vinham da imprensa e da torcida. Só que aconteceu o contrário, já que tivemos chances de matar a partida. Eu, por exemplo, poderia ter marcado, se o Márcio Mixirica tivesse passado a bola para mim quando eu estava livre para finalizar. Nunca joguei em clube do Rio de Janeiro, mas bato no peito para dizer que já levantei troféu no templo sagrado que é o Maracanã - lembrou Maurílio.
Andarilho
Quando pendurei as chuteiras, fiquei apenas com o nome. O atleta não existe mais. Estou começando uma nova carreira por paixão"
Maurílio
Depois da Copa do Brasil de 1999, as andanças de Maurílio seguiram por 13 clubes. Fez sucesso no futebol cearense, atuando por Ceará e Fortaleza, e pelo Remo, sendo campeão da Série C de 2005. Teve mais duas experiências internacionais com o Vitória Guimarães (Portugal) e o Al Ittihad, sendo artilheiro e campeão saudita pelo último. Passou mais duas vezes pelo Paraná até ficar perambulando por pequenos clubes. Encerrou a carreira em 2009 pelo Uniclinic-CE e virou treinador em 2010, no Maranguape-CE.
- Quando pendurei as chuteiras, fiquei apenas com o nome. O atleta não existe mais. Estou começando uma nova carreira por paixão. Soube guardar o que ganhei como jogador. Se eu quisesse, não precisaria trabalhar. Mas sou movido pelo amor ao futebol.
O bem-humorado Maurílio vai ter que trabalhar bastante para fazer o Vitória jogar bem. Várias pessoas do clube estão desacreditadas sobre a campanha do Tricolor das Tabocas na segunda divisão do Pernambucano. É sua quinta tentativa como treinador, a primeira fora do Ceará.
- Pretendo crescer na profissão fazendo uma boa campanha e conquistando títulos pelo Vitória. Daí posso almejar algo maior. Ninguém quer ficar onde está, todo mundo quer evoluir, e comigo não é diferente.
O Vitória é o sexto colocado na busca pelo acesso, com 20 pontos. No domingo, visita o Íbis.
Pelo menos nas cores, Vitória remete Maurílio aos bons tempos de jogador do Paraná (Foto: Lula Moraes/Globoesporte.com/PE)